quarta-feira, 11 de agosto de 2010

KANELLOS. Trótski agora late


Kanellos é este cachorro marron da foto.

A Grécia pode estar quebrada. Mas a mitologia grega acabou de enriquecer o mundo com a história de Kanellos, o cão trotskista. Desde Cérbero, o guardião do inferno, não vinha lá das bandas de Atenas uma entidade canina de tamanha importância, capaz de ofuscar os cortes de salários, aumentos de impostos e outros pratos feitos da crise financeira nas páginas do jornal inglês The Guardian, o primeiro órgão de imprensa a cobrir amplamente a presença de Kanellos em manifestações de rua contra a atual política de aperto fiscal.

Nas fotografias, o vira-lata dava mesmo a impressão de estar em todas. Havia flagrantes de Kanellos latindo de focinho aberto para pelotões de soldados encolhidos atrás de escudos, máscaras contra gases e capacetes. Cenas em que ele encara uma nuvem de gás lacrimogêneo, como se não passasse de gelo-seco em arena de circo. Ou desfila olimpicamente diante de um canhão de água pressurizada, desses que dispersam multidões. E atravessa, como indômito guerreiro, as fogueiras e os destroços das barricadas estudantis, rompe a dentadas cordões de isolamento, corre atrás das motocicletas de policiais ou beberica, no calçamento de Sintagma, a praça do Parlamento e dos tradicionais quebra-quebras, o leite derramado num protesto por fazendeiros. Sempre ao lado do povo e contra o tacão das autoridades.

Segundo o
Guardian, Kanellos não dá trégua ao governo grego há pelo menos dois anos. Sem dúvida isso lhe garantiu um lugar no panteão dos heróis mitológicos, já que o animal, em si, morreu em 2008, de velhice, derrotado pela artrite, depois que seus aliados políticos na universidade fizeram uma subscrição para lhe doar uma cadeira de rodas feita sob medida para cachorros com necessidades especiais. Foi enterrado "com honras de inimigo de Estado", na feliz expressão dos estudantes presentes ao funeral. E virou tema de uma canção, cuja letra, em grego, não deixa dúvidas de que se trata de "uma música para um cão chamado Kanellos".

P.S.: Esta é a parte inicial do interessante artigo na revista PIAUÍ, que está cada dia melhor e agora no site da ESTADAO.COM.BR.